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Quando a escolha certa é quebrar a regra

É necessário se perguntar: a regra está ali para proteger a mim, ao resultado, a outras partes interessadas, a um recurso material, ou a uma preferência?

Regras são feitas para serem seguidas, mas – mesmo quando a regra está correta –, às vezes a escolha de quebrá-las conduz ao melhor resultado.

Idealmente, essa contingência deve ser planejada antes, e ter responsabilidades claramente definidas.


Um botão vermelho no qual está escrita a palavra DANE-SE
Um Botão de Dane-Se, de mesa, com finalidade anti-stress.

Ilustro com uma figura que vem da década de 1940: a configuração WEP (ou motorização emergencial militar), que permitia aos pilotos de aviões militares (dos EUA, União Soviética e Alemanha, ao menos) dizer ao motor: "Danem-se teus limites de segurança, preciso ir além do máximo, imediatamente".

Era a implementação prática de um Botão de Dane-se, ou outra palavra mais forte que você prefira usar nesse contexto.

E a presença dele (na prática, uma forma especial de forçar o comando de aceleração) indicava uma permissão explícita, clara e previamente ajustada, para decidir quebrar uma regra operacional em prol de algo mais valioso.


Uma aeronave MiG-21 com as cores da força aérea da Alemanha Oriental
Neste MiG 21 da Alemanha Oriental, o Botão de Dane-se aumentava em 106% o rendimento do motor, por até 2 minutos.

Em aviões como o P-51 Mustang, fazer uso desse recurso representava até 60% a mais de desempenho, por um período de até 5 minutos, ao final do qual o motor poderia ficar inutilizado.

Em outras aeronaves, o percentual e o tempo variava: o F4U Corsair aumentava pouco mais de 15%, já o MiG-21 (foto), da década seguinte, aumentava 106%, por até 2 minutos.

A justificativa é evidente: não adianta preservar as condições de durabilidade e eficiência do motor de um avião que está prestes a ser derrubado por adversários. O piloto – sabendo das implicações – precisa poder decidir ir além do que o fabricante do recurso definiu como regra.

A regra está ali para proteger o resultado, os participantes, um recurso físico substituível, ou uma preferência de alguém?

No dia a dia, o critério geral é similar: se a regra estiver ali para proteger uma preferência pouco relevante, ou um recurso fungível e de custo proporcionalmente baixo, desprezá-la (e gerenciar as consequências) é uma solução natural.

Em ambientes formais, é interesse do responsável por esse resultado identificar esse fato a tempo, e dar autoridade a todos os envolvidos, para preferir quebrar a regra (a tempo e sem demandar confirmações e trâmites formais durante uma situação emergencial) do que arriscar o resultado ou outros elementos mais valiosos desse mesmo contexto.

E se você é o responsável pelo resultado, ou recebeu a delegação correspondente, é importante saber se você tem a autonomia de quebrar esse tipo de regra, para evitar ter de lidar com os efeitos de que a eventual quebra, mesmo que justificada, acabe quebrando junto outra coisa mais valiosa: um acordo, a confiança de alguém, uma responsabilidade normativa, etc.

Outras observações importantes, no contexto:

  1. Se você quebrar a regra repetidamente, a regra tem que ser revista, ou os recursos precisam ser atualizados. Afinal, para todos os efeitos práticos, o que acontece regularmente é, por definição, parte da regra, mesmo se ainda não estiver expresso.
  2. Regras feitas para proteger a segurança de recursos precisam ter como consequência de sua quebra a manutenção adequada do recurso que foi exposto a essa condição. No caso dos aviões P-51 Mustang, que mencionamos, o acionamento do "Botão de Dane-se" rompia fisicamente um cabo, para que depois as equipes de manutenção não tivessem como deixar de perceber e colocar o motor em uma revisão especial.
  3. Preferir proteger a integridade de recursos materiais substituíveis do que o resultado do processo ou a segurança das pessoas envolvidas é um sinal claro de disfunção de gestão.
  4. Ter que justificar uma vez a quebra de regra é normal. Ter que justificar a cada vez que a situação se repete é sintoma de disfunção, não pela justificativa, mas sim porque a quebra está precisando ser quebrada com frequência.

Pessoalmente, quando trabalho em equipe ou sob responsabilidade de alguém, procuro identificar antecipadamente situações em que seria possível precisar quebrar esse tipo de regra, para já acertar o modelo e as responsabilidades – afinal, indo além do formal, depois que dá errado, podemos levar a culpa tanto por quebrar a regra quanto por preferir preservá-la e com isso colocar em risco o resultado ou as pessoas.

E quando trabalho sozinho, a decisão é minha, e não hesito em tomá-la. O botão de dane-se está ali para ser usado.

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