Você vai precisar trocar muitas senhas nos próximos dias, veja como escolher senhas melhores

Já que você vai precisar trocar suas senhas, que tal aproveitar para saber como ter senhas diferentes para cada serviço on-line, fazê-las parecer aleatórias – como Ae9^Dir19 ou quTE1W#sa – e não ter dificuldade de lembrar delas?

Você deve ter ouvido falar no bug Heartbleed, descoberto nesta semana (abril de 2014), que atacou a criptografia da web e comprometeu ao longo de 2 anos a segurança de boa parte dos sites mais populares da web (incluindo nomes como Gmail, Facebook, Dropbox e muitos outros) e que, para todos os efeitos práticos, significa que as suas senhas e outros dados de acesso podem estar nas mãos de terceiros mal-intencionados.

Uma das providências necessárias para reduzir os danos causados pelo bug é trocar as suas senhas assim que cada site corrigir o bug nas suas instalações (vários já corrigiram e você não deve aguardar para trocar a senha neles).

Desta vez o vazamento afetou simultaneamente a maioria dos sites "seguros", mas geralmente os comprometimentos ocorrem com um site de cada vez, razão pela qual você continua precisando ter uma senha diferente em cada site, se quiser ficar tranquilo1.

Usar senhas complicadas e simultaneamente evitar repeti-las em mais de um site pode ser complicado, mas com uma técnica simples é possível saber como criá-las e nunca esquecê-las. Eu a uso há anos para dezenas de senhas, e não sou o único.

E hoje, ao gerar uma nova regra pessoal para trocar todas as minhas senhas mais uma vez, voltei a lembrar de compartilhar a dica com vocês.

O que são senhas fortes

Se a sua senha é um padrão comum (como "123456"), há programas para testar automaticamente uma série de padrões assim e encontrá-la em poucos minutos. Já se ela é uma palavra que consta no dicionário ou enciclopédia, ou derivada delas (como "superman73", "Ram0nes" ou "Tcha1kovsky"), adivinhe: também há programas para testar automaticamente todas as palavras de vários dicionários e encontrá-las em tempo bem razoável.

Uma senha forte mistura letras, números e símbolos, e não deriva diretamente de nenhuma palavra que conste em dicionários, enciclopédias ou padrões identificáveis de forma automatizada (tais como sequências alfabéticas, sequências de caracteres próximos no teclado, a primeira letra do nome de cada um de seus filhos, ...).

Uma senha forte lembra o que um bebê (ou gato, ou... um bebê gato) produziria batucando no teclado: Ae9^Dir19, quTE1W#sa, e assim por diante, com aparência aleatória.

O problema principal, no caso, é memorizar cada uma delas: se você criá-las de forma verdadeiramente aleatória e tiver uma para cada serviço, e todas forem assim "malucas", será necessário uma memória prodigiosa, ou recorrer a algum software ou outro recurso especializado para registrá-las e no qual você confie (existem vários, muitos são positivamente avaliados por especialistas, como o 1password e as senhas compartilhadas do iCloud – mas não uso nenhum).

Como ter senhas fortes usando uma regra pessoal

Aquelas senhas "aleatórias" vistas acima são muito difíceis de memorizar, mas e se você inventar uma maneira de produzir senhas fortes de forma que façam sentido apenas para você, e pareçam aleatórias para as demais pessoas?

Aí basta lembrar dessa maneira escolhida (que só você conhece) e pronto: senhas complexas, que não façam sentido para mais ninguém, e que se você esquecer, podem ser reconstruídas com a simples aplicação da mesma regra.

Vamos a um exemplo, lembrando que a "maluquice" da regra (que na teoria criptográfica corresponde à ampliação da entropia) que você inventar funciona a seu favor, e que você NÃO DEVE copiar exatamente o que eu vou descrever a seguir.

Exemplo 1: endereço do meu avô, mais número de letras e vogais do nome do site

Na década de 1980 meu avô morava na rua Alexandre Doehler número 99, apartamento 19, e essa informação provavelmente não consta em nenhum cadastro associado a mim (mas hoje consta, porque já a divulguei como exemplo anteriormente. Ignore este fato, para propósitos didáticos ツ).

Poderíamos extrair vários padrões "malucos" destes dados, mas vou começar com um bem simples:

  1. Separar a primeira e última letras do nome e sobrenome da rua: AeDr.
  2. Já temos minúsculas e maiúsculas, mas precisamos de números. Vamos inseri-los, diretamente a partir dos que constam no endereço, em sua ordem natural: Ae99Dr19sabendo que aquele endereço é significante para mim, continua bem fácil de lembrar, não?
    Neste ponto já temos uma senha razoavelmente boa, mas ainda falta ao menos um símbolo e a garantia de que teremos uma senha diferente para cada site, serviço ou software.

  3. Para começar, que tal substituir um ^ na posição correspondente à segunda vogal no nome do serviço para o qual você vai usar a senha? Assim, para o Facebook, nossa senha maluca viraria Ae9^Dr19 (o "e" é a segunda vogal do nome Facebook, e foi colocado na quarta posição da senha), para o Twitter a senha seria Ae99D^19, etc.
    Neste ponto já estamos em um bom começo, mas a entropia ainda é bem insuficiente: a senha para o Gmail seria a mesma Ae9^Dr19 que geramos para o Facebook, por exemplo. Dá para melhorar.

  4. Para dar um passo a mais, que tal inserir a penúltima letra do nome do serviço, 2 posições após o símbolo que foi substituído? Aí a senha do Facebook ficaria Ae9^Dor19, a do Twitter seria Ae99D^1e9 e a do Gmail seria Ae9^Dir19

Isoladamente, as 3 senhas acima parecem geradas aleatoriamente, e a regra de formação delas não é óbvia para um teste automatizado, especialmente sem o conhecimento daquele dado importante: o endereço do seu avô na década de 1980. E se alguém vier a ter acesso à senha de um ou 2 dos seus serviços on-line, em vazamentos sucessivos, ainda assim pode ter dificuldade para entender a relação entre elas, e para adivinhar uma terceira.

Exemplo 2: partindo da letra de uma música obscura

Vamos usar como origem um verso de uma música que não seja a sua preferida, e também não esteja entre os maiores sucessos de seu autor (porque senão a possibilidade de ser associada a você ou reconhecida é maior).

Para este exemplo, vamos usar a música "Declare Guerra", do início da carreira do Barão Vermelho. Agora o passo-a-passo vai ser menos detalhado, porque você já entendeu como o procedimento funciona:

  1. Vamos partir de um verso da música, escolhido ao acaso: "Chega de passar a mão na cabeça de quem te sacaneia", e pegar as 2 primeiras letras das 3 últimas palavras dele: quTEsa – 2 delas foram escolhidas arbitrariamente para ficar em maiúsculas.
  2. Essas mesmas 3 palavras da letra original têm um total de 14 letras, portanto aí está o número que desejamos inserir: quTE14sa
  3. Agora vamos escolher 2 símbolos diferentes para alternar: se o número de letras do nome do serviço for ímpar, vai ser o # (que no meu teclado fica em cima da tecla 3, que é ímpar), e em caso contrário será o $ (que fica em cima do 4, que é par).
  4. Resta decidir a que altura inseri-los. Para simplificar, vou usar a mesma regra do exemplo 1: na altura da segunda vogal do nome do serviço. Assim, a senha do Facebook (8 letras, par) ficaria quT$14sa, a do Twitter (7 letras, ímpar) ficaria quTE1#sa e a do Gmail (ímpar) seria quT#14sa.
  5. Para garantir um mínimo de entropia adicional necessária, vamos inserir a segunda letra do nome de cada serviço, escrito em maiúscula, imediatamente antes do símbolo do passo anterior. Assim, a senha do Facebook ficaria quTA$14sa, a do Twitter ficaria quTE1W#sa e a do Gmail seria quTM#14sa.

A prática de métodos similares a este que compartilhei me indica que é fácil memorizar as senhas variadas de cada serviço ou site, e lá pelo terceiro dia já não preciso ficar lembrando da regra a cada novo login nos sites que uso com frequência. Já para os sites que uso menos, de vez em quando tenho que usar a regra, mas é fácil o suficiente.

Restam as personalizações (crie sua regra, não repita as dos exemplos, nem reuse os mesmos símbolos e critérios seletores!) e as exceções: sites ou serviços que exigem outros tamanhos de senhas, sites nos quais você tem um login (dica: use algum detalhe do login como parte da regra da senha), ou mesmo sites que exigem um número determinado de letras, números, símbolos, etc. Lidar com elas precisa ser parte da sua regra.

Considerações finais

Duas recomendações extras: compartilhe a regra com a pessoa em quem você confia para lidar com seus acessos em caso de uma incapacidade sua ou outra emergência (coma, acidente, etc.), e aplique a mesma regra a 100% dos serviços, o que certamente demandará uma ou duas horas do seu tempo até trocar todas.

E a terceira nem deveria precisar ser escrita: não esqueça a sua regra, ou você estará numa situação potencialmente pior do que a de quem usa a mesma senha para todos os sites!

Em tempo: senhas difíceis de memorizar ou complicadas de escrever são uma consequência de uma má escolha tecnológica, que são essas senhas relativamente curtas que usamos no dia-a-dia (como explica a célebre tirinha do XKCD).

Imagino que não demoraremos a ver a popularidade de outros métodos: comprovação de identidade baseada em gestos, em reconhecimento de padrões, em séries de palavras, etc. Enquanto isso não chega, precisamos nos virar com o que temos!

E será que você notou a pegadinha? Reveja agora o trecho do texto acima em que eu "chutei" 2 senhas e disse que poderiam ser produzidas por um bebê batucando no teclado. Você irá notar que ambas resultaram dos passos finais dos 2 exemplos que dei da formação de senhas, e portanto não eram tão chutadas assim. Que tal? ツ

 
  1.  Ou ao menos tão tranquilo quanto é possível enquanto o acesso continuar a ser controlado por meio de senhas, uma forma de identificação cada vez menos segura.

Produtividade Zen: reduza o número de tarefas que você controla

Simplificar é remover o que não é necessário e ter mais capacidade de se dedicar ao essencial – serve para a arte, mas também serve para a sua lista de tarefas.

O ZTD, método de produtividade pessoal que eu uso, é uma série de 10 hábitos, dos quais 4 são essenciais e os outros (como o das revisões periódicas) podem ou não ser agregados conforme você avança na capacidade de se organizar.

Um dos hábitos avançados do ZTD é o da simplificação, que consiste em reduzir o número de atividades que precisamos controlar ou, idealmente, que precisamos realizar para atingir nossos objetivos.

Leonardo da Vinci definiu bem: a simplicidade é a sofisticação definitiva.

A mesma visão de simplificação "zen" do ZTD está presente em filosofias orientais. Confúcio disse que a vida é simples, mas insistimos em torná-la complicada. Até Bruce Lee se posicionou a respeito, deixando a seus seguidores a citação “Não é o acréscimo diário, mas o decréscimo diário. Remova o que não for essencial”.

Se você já domina os 4 hábitos básicos do ZTD, ou de algum outro método de produtividade pessoal (todos eles tendem a se aproximar desta lista: capturar, processar, planejar e executar), pode estar na hora de dar o passo adicional de usar a seu favor a eficiência adquirida, simplificando a sua rotina.

Definir o que é essencial depende de cada um, mas o número de pessoas que eu conheço que estão estressadas por tentar fazer muitas coisas ao mesmo tempo só aumenta, e frequentemente a produtividade que elas ganham acaba servindo apenas para que elas façam ainda mais coisas.

Para o autor do ZTD, simplificar significa “reduzir suas metas e tarefas ao essencial”.

A simplificação da produtividade é alcançada, no início, revisando periodicamente as listas de atividades e projetos, realizando ações que removam delas o que não é essencial – ganhando assim espaço para dar atenção àquelas que são mais importantes: as que constituem a base para o valor que você gera, ou as que o aproximam dos seus objetivos.

Conforme você simplificar por meio de revisões e perceber o quanto isso contribui para o alcance dos seus objetivos, vai perceber que isso o tornará mais capaz de filtrar compromissos antes mesmo de aceitá-los como itens da sua lista, assim como reduzir o fluxo de informações que passam por você sem agregar algum valor real – multiplicando assim o ganho em termos de tempo e atenção disponíveis!

Seu projeto precisa passar por uma reunião de aprovação? Inclua um pato ou uma banheira!

Um designer de jogos, um arquiteto e um sargento ensinam como aumentar a chance de fazer seu projeto passar rapidamente por um comitê de aprovação.

O funcionamento interno das organizações tem razões que a própria razão desconhece, e às vezes é mais fácil aprender a contornar os obstáculos involuntários causados por eles, do que aguardar que sejam removidos por quem os criou e não desejará admitir que eles atrapalham.

Um caso clássico é o das reuniões de aprovação interna de planos de projeto. Às vezes realizadas por um comitê especialmente designado para isso, outras vezes ocorrendo no nível de diretoria ou até no próprio departamento em que o plano foi criado, há algo em comum entre todas elas:

Em qualquer comitê de aprovação tende a haver certo número de pessoas que só considerará cumprido seu trabalho se provocar alguma mudança no plano apresentado.

A consequência natural (e indesejada) da regra geral acima é que a vida de todos os envolvidos – comitê de aprovação e grupo de projeto – fica bem mais difícil quando um plano sem nenhum problema visível é encaminhado para aprovação logo na primeira vez.

A solução óbvia e correta é mudar o processo de aprovação ou substituir essas pessoas com uma visão incorreta sobre o seu papel nele, mas dificilmente esta opção estará imediatamente ao alcance de quem terá um trabalho submetido a este tipo de comitê interno.

A solução aprendida na prática por muitos gerentes de projeto e profissionais criativos é sempre incluir um pato, ou uma banheira, bem visíveis no seu projeto. Ambos são termos técnicos informais para descrever uma pequena aberração incluída no plano em um local fácil de encontrar, para que os avaliadores que adotam a meta incorreta de sempre alterar qualquer projeto fiquem satisfeitos rapidamente e o projeto logo possa ir adiante.

O termo "pato" vem do folclore da informática (veja o item "Duck" deste glossário) e se refere a um caso específico: o desenvolvimento do clássico jogo Battle Chess, da década de 1980, em que as peças do jogo de xadrez tinham movimentos animados e lutavam entre si quando uma tomava outra.

No comitê de aprovação da Interplay, na época, havia avaliadores conhecidos por sempre solicitar alguma alteração antes de deixar o desenvolvimento seguir.

O artista encarregado de animar os movimentos da Rainha, sabendo disso, chegou a uma solução inovadora: em todos os movimentos da peça ele incluiu um pato de estimação que ficava circulando ao seu redor, agitando as asas, etc. – mas sem jamais sobrepor a animação "de verdade".

Quando a sua peça chegou ao responsável pela aprovação, você pode adivinhar o que aconteceu: o produtor assistiu a todas as animações e disse: "gostei de tudo, só remova esse pato". C.Q.D. 😃

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A história da banheira é parecida, mas vem da arquitetura e eu desconheço a fonte original. Ao projetar uma catedral metropolitana, um arquiteto tinha que passar as plantas por um comitê pastoral que, além de sempre devolver o projeto para alterações, raramente concordava entre si: assim, o que um dos integrantes aprovava, o outro desaprovava, e a alteração solicitada por um integrante acabava desagradando a outro quando chegava a hora de reapresentar.

Em certo momento, após diversas tentativas, o arquiteto acabou bolando o que era chamado de "Regra da Jacuzzi" em uma empresa de desenvolvimento de software em que eu trabalhei: ele voltou à versão inicial da planta apresentada (sem os "penduricalhos" acrescidos pela comissão), mas acrescentou à maquete dela uma nada discreta banheira de hidromassagem, logo atrás do altar, onde estaria a pia batismal.

O resultado foi o que você adivinhou: os integrantes da comissão acharam o projeto bem mais "clean" (sem saber que o que foi removido eram os penduricalhos criados por eles mesmos), e concordaram entre si: para ficar perfeito, só faltava remover "aquela banheira ali" e trocá-la por uma pia batismal tradicional.

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Nos meus estudos sobre a produtividade já tropecei em outros casos clássicos que confirmam o método: na preparação para a 2ª Guerra Mundial, por exemplo, há relato de que a inspetoria de artilharia de determinado regimento tinha instrução de jamais dar nota máxima a nenhum campo de treinamento de tiro.

Sabendo disso, ao ver a inspetoria chegando, os sargentos encarregados davam um jeito de sempre incluir alguma falha menos grave na sua organização, em local fácil de encontrar, para que os inspetores achassem logo alguma coisa para evitar a nota máxima, cumprindo assim a sua ordem, e então ter menos stress no restante do processo.

Nenhuma dessas "técnicas" se aproxima da efetividade máxima para a organização: para ela, a solução seria reformar o comitê de aprovação e seus processos de trabalho. Mas se o modelo adotado pela organização leva a esse tipo de comportamento dos responsáveis, às vezes o interesse do projeto pode ser melhor atendido pela rápida adoção de um desvio como os mencionados, do que pelo custoso processo repetitivo de ajustes causados pela busca voltada a encontrar algo que justifique a existência do comitê!

O bicicletário e o reator: nas reuniões, cuidado com a Lei de Parkinson da Banalidade

É da natureza humana: assuntos mais próximos da realidade pessoal recebem mais atenção. Isso ajuda a desviar o foco de qualquer grupo, e pode ser uma das razões de problemas nas suas reuniões.

C. Northcote Parkinson sabia das coisas.

É provável que você já tenha ouvido falar da célebre Lei de Parkinson, que explica a razão de as despesas crescerem até ocupar toda a receita disponível, de os projetos se estenderem até usar todo o tempo alocável (se você só tem 45 minutos, fará seu relatório inteiro neles, mas se tiver 2 dias, demorará 2 dias) e de as organizações (empresas, departamentos, etc.) se expandirem até consumir todos os recursos disponíveis.

Além desta que ficou conhecida como "a" Lei de Parkinson, na obra magna de C. Northcote Parkinson, publicada originalmente em 1958, também encontramos a definição de Leis sobre várias outras disfunções organizacionais, incluindo a Lei de Parkinson da Banalidade (ou Lei da Trivialidade, em uma tradução mais direta do original).

A Lei da Banalidade foi definida por Parkinson assim: “o tempo dedicado à discussão de cada ponto de uma pauta de reunião é inversamente proporcional ao valor dele”.

Para explicar a Lei da Banalidade, Parkinson recorreu a exemplos baseados no valor financeiro de cada ponto de pauta da reunião, mas a Lei também se aplica a outras escalas de valor.

O exemplo escolhido por Parkinson é bastante expressivo – uma reunião de diretoria com 3 pontos de pauta, a saber:

  1. Um contrato de US$ 10 milhões para construir um reator nuclear
  2. Uma proposta de US$ 2.350 para construir um bicicletário para os funcionários
  3. Uma proposta de US$ 57 anuais para passar a oferecer café nas reuniões do comitê de bem estar dos funcionários

Ao longo do capítulo 3 de seu livro, Parkinson descreve como transcorreu essa reunião: 2 minutos e meio dedicados ao reator (cuja proposta envolvia demolições, construções especiais, plantas técnicas e conceitos científicos), 45 minutos dedicados ao bicicletário, e 1h15min dedicados à proposta de passar a oferecer café ao comitê de bem estar.

As razões são simples e explicam a própria Lei da Banalidade:

  1. O reator é tão complexo, e a quantia de 10 milhões de dólares está tão acima da realidade pessoal de cada diretor que, embora a deliberação lhes caiba, todos assumem que quem trouxe a proposta se certificou de que os técnicos envolvidos sabem do que estão falando – e assim evitam o risco de expor a sua ignorância caso queiram tratar de alguma especificidade em frente aos demais diretores.
  2. Um bicicletário e a soma de US$ 2.350 são itens que todos os presentes compreendem e se sentem aptos a dar sua contribuição pessoal, inclusive para "compensar" a manifestação que faltou na discussão sobre o reator. Assim, discutem como deve ser a cobertura, a pintura, a sinalização como se fossem questões estratégicas sobre as quais "ganhar" a discussão tem relevância sobre a carreira e sobre o futuro da organização.
  3. Mesmo quem não sabe a diferença entre teto de zinco ou de plástico para o bicicletário terá algo a dizer sobre a qualidade comparada das marcas de café e de garrafas térmicas, ou sobre se cabe ou não à organização oferecer esse tipo de conforto às reuniões de um comitê que não é dela, e sim de seus funcionários. Aqui há espaço para gostos e paixões, sem ninguém lembrar que a hora de trabalho dos membros reunidos é mais cara que os US$ 57 que estão em debate. É bem provável até que esse ponto da pauta termine inconcluso, e o secretário da diretoria fique incumbido de obter informações adicionais junto à ABIC e a algum laboratório de controle de qualidade para a continuidade do debate na próxima reunião.

Parkinson vai ainda mais longe e conclui que em algum ponto da escala os valores chegam a um nível tão baixo que os membros da diretoria se recusam a discuti-lo, mas nos testes de campo ele não conseguiu encontrar esse ponto, que ele estima que estará entre os US$ 20 e os US$ 10.

Reconheceu algum dos aspectos da descrição acima? Eu sempre me impressiono com a forma precisa como as leis de Parkinson, escritas na década de 1960, continuam a refletir vários dos comportamentos das organizações atuais.

Se isso aconteceu com você alguma vez nos últimos 3 meses, mande uma cópia deste artigo para a sua equipe e, quando notar que a discussão está enveredando para os US$ 57, lembre a todos para que olhem mais para o reator e menos para o bicicletário 😃

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O livro "A Lei de Parkinson", inspiradíssima sátira da Administração (especialmente a Pública, com foco em relações humanas e desenvolvimento da carreira) foi escrito em 1958 por C. Northcote Parkinson, a partir de artigos de sua autoria publicados originalmente na prestigiada revista The Economist.

Eu o li pela primeira vez quando estava na primeira fase da minha graduação em Administração, e posteriormente tive oportunidade de reler várias vezes para inspirar melhorias em processos de gestão.

Aliado a várias outras sátiras de Administração (como o Princípio de Peter, ou os modernos trabalhos de Scott Adams com a turma do Dilbert), é impossível ler essas "sátiras a sério" sem perceber que as coincidências entre o material descrito e a realidade corporativa são abundantes.

Ele permanece à venda, com atualizações da mesma tradução original para o português que havia na biblioteca da minha faculdade. As notas do tradutor no rodapé são um show à parte. Não são muitas, mas ele dá um jeito de dialogar com o texto original, com o autor e com o leitor. Vale a leitura e o eventual tempo dedicado a procurá-lo. Recomendo! São 118 páginas, e a edição é da Nova Fronteira.

Verão extremo: 4 dicas para sobreviver neste calor

Se o verão não veio acompanhado de uma piscina e de um ar condicionado ligado 24 horas por dia, as 4 dicas a seguir podem ajudar a reduzir o desconforto durante o dia e também na hora de dormir no calor.

1. Ventilador do avesso: se a temperatura da rua estiver mais fresca que a do seu ambiente (especialmente à noite), coloque o ventilador na janela de um jeito diferente: apontando para fora. A Física vai ajudar: jogar o ar quente do quarto para fora é mais rápido e eficaz do que jogar o ar fresco da rua para dentro. Depois de reduzir a temperatura, aponte-o como preferir.

2. Spray de jardim na geladeira: deixe sempre na geladeira um borrifador (tem na seção de jardinagem do seu hipermercado favorito) cheio de água pura. Quando precisar se refrescar rapidamente, borrife (sem encharcar!) um pouco da água, sempre começando pelos pés ou pelos pulsos (para aproveitar um efeito positivo da circulação sanguínea). A temperatura da água tem efeito óbvio, mas o efeito da evaporação também refresca, e é por isso que é importante não encharcar.

3. Ventilador de mesa: uso há anos um ventilador USB. Quando é necessário usar o computador no calor, apontar um mini-ventilador para o meu rosto ajuda a interromper logo o desconforto do suor. É barato, fácil de encontrar, e basta plugar e já estará funcionando. É possível encontrar também um ventilador elétrico de mesa (tenho um em casa, da marca FAME, comprado há 5 anos) de baixo consumo (15W), que serve para a mesma aplicação, embora gere um pouco mais de vento. Mas lembre-se: o ventilador sozinho não reduz a temperatura ambiente, só tem efeito sobre a sensação térmica, já que movimenta o ar que está em contato com a sua pele.

4. Toalha molhada ajuda a dormir: funciona há milênios: separe duas toalhas grandes. Uma delas deve estar seca, e a outra você deve molhar e depois torcer bem (pode centrifugar na máquina de lavar, mas não a seque) para que não fique encharcada. A toalha seca é colocada na cama como se fosse uma colcha, e com a toalha úmida você se cobre. Enquanto a umidade estiver evaporando, a sua sensação térmica será melhor do que a do ambiente. Quando ela secar, é só remover, mas aí você já terá conseguido o mais difícil, que é fazer o sono surgir numa noite quente demais.

Além disso, lembre-se que a dica das roupas mudou faz tempo. Quem já tem algumas décadas de vida se acostumou com a ideia de que roupas de fibras naturais (algodão, etc.) são mais "frescas" que as de fibras sintéticas.

Quando se trata dos tecidos sintéticos de décadas atrás, isso era mesmo verdade, mas hoje existem várias categorias de roupas esportivas feitas com fibras sintéticas inteligentes que são projetadas para afastar rapidamente da pele o suor, movendo-o para onde evaporará, com mais eficiência que as roupas de fibras naturais.

Portanto, não deixe conceitos ultrapassados atrapalharem a sua escolha, mas também não ache que qualquer fibra sintética terá esse efeito positivo!

Regra dos pares: o segredo para encarar um ambiente em que você não conhece ninguém

Circular em uma sala repleta de desconhecidos em busca de interesses profissionais em comum fica bem mais fácil quando você conhece a regra do jogo, e ela é bem simples.

Cada vez mais eventos profissionais ou de negócios incluem ambientes especialmente preparados para estimular a formação de networking: é o welcome coffee na chegada, um coffee break mais prolongado, um coquetel logo após a reunião/palestra, etc.

Se você é introvertido, como eu, pode sentir o desejo de procurar ir falar com quem você já conhece, ou ir para um canto discreto brincar com o seu smartphone, ou ainda "grudar" no buffet e ter um diálogo mais próximo com a bandeja de canapés.

Muitas pessoas acham difícil iniciar uma conversação com quem ainda não conhecem e nem foram apresentados.

Com sorte e um pouco de vento a favor, haverá alguém no ambiente que conhece você e também conhece outra pessoa nova que possa ter algum interesse comum com você, e fará a ponte entre os 2. Mas na maioria das vezes isso não acontece.

Com o tempo e a prática de ir a esses eventos, talvez você acabe formando a ideia de que essas situações são um jogo no qual todo mundo está exposto às mesmas regras, que são exatamente vencer a resistência que estranhos costumam ter entre si, e encontrar interesses comuns.

No começo é difícil, e a Regra dos Pares pode ajudar bastante.

Assim como não é nada intuitiva a ideia de que todas aquelas pessoas foram reunidas ali naquela sala para conversar com quem elas ainda não conhecem, e não para estreitar os laços com quem elas já conhecem, a Regra dos Pares é ainda menos intuitiva.

Ela consiste em fazer exatamente o que evitamos fazer em ocasiões puramente sociais: ao invés de se juntar a uma roda de amigos ou ir falar com quem também está sozinho, a Regra dos Pares consiste justamente em ir se juntar a uma dupla de pessoas que já estejam conversando entre si.

Pegue um copo ou xícara de alguma coisa, respire fundo e comece: analise rapidamente o ambiente, procure um par de pessoas em cuja conversa você identifique palavras-chave do assunto profissional que os reuniu no evento e faça o impensável: junte-se a elas, apresente-se, ouça um pouco e passe a participar.

Isso funciona mal em situações sociais comuns, mas nesse tipo de evento é bem diferente, porque:

  1. Eles sabem que você está ali para encontrar pessoas com interesses profissionais em comum
  2. Assim como você, eles sabem que foram colocados naquela situação para essa mesma finalidade, e:
    • Ou eles já se conheciam e sabem que deveriam estar tentando encontrar desconhecidos, e aí você chegou para salvá-los de mais uma vez perderem a oportunidade,
    • ou eles se conheceram ali, e a sua chegada em nada prejudicará algum elo pessoal que sempre assumimos haver entre 2 pessoas que estão conversando.

Neste último caso, em que eles acabaram de se conhecer e você se juntou como um terceiro ex-desconhecido, existe mais uma chance interessante, e bem comum: um dos 2 já ter descoberto que o outro não tinha nada a lhe acrescentar, e a sua chegada significará mais uma oportunidade de ele encontrar o que procura, ou de se afastar sem grosseria.

Funciona para você também: se você notar que não foi bem recebido ou que aquele par não tinha nada de interessante a acrescentar, simplesmente diga "com licença" e se afaste, resoluto, em busca de mais um par e de uma nova tentativa.

Lembre-se que o objetivo do jogo não é fazer um novo melhor amigo, nem colecionar endereços de e-mail e cartões, mas sim identificar pessoas com interesses em comum com as quais você de fato queira estreitar relações posteriormente, ou as quais tenham algo a lhe dizer que você não ficaria sabendo de outra maneira.

Portanto, não seja mala, não grude na primeira pessoa que for simpático com você, nem avalie mal o seu sucesso: encontrar um par de pessoas com os quais a conversa flua é bom, mas o objetivo real às vezes exige falar com vários pares ao longo do evento, alguns dos quais serão menos legais que os outros.

Um efeito colateral positivo extra é que assim você vai conhecendo 2 pessoas de cada vez, e a chance de no próximo evento da mesma linha de interesse profissional haver alguém que se lembre de você e o apresente a outra pessoa que sabidamente tenha algum interesse em comum com você só aumenta ;-)

Leia também: Como se livrar de conversas chatas, em 10 lições.