Lembre-se que os sistemas ao seu redor tendem a fabricar suas próprias crises
Na família ou no trabalho, aprenda a navegar as situações críticas que as dinâmicas sociais criam espontaneamente até quando não há causa material.

Exceto quando se aplica esforço específico para criar ambientes saudáveis, há pouca inocência nas dinâmicas sociais que se formam naturalmente em casa, no trabalho, na escola, no clube, e onde quer que você se reúna com pessoas que se organizam para alguma finalidade.
A estrutura de poder prefere conviver com um problema que se agrava, do que permitir uma solução que coloque em risco o seu status.
Isso não quer dizer que essas instituições são perversas, mas as estruturas organizacionais tendem a não priorizar o extermínio definitivo dos problemas que geram a demanda por sua existência, e a evitar até mesmo as melhores soluções, caso elas coloquem em risco a sua estrutura de poder.
Esses fenômenos ajudam a explicar por quê é tão fácil encontrar exemplos em que as pessoas responsáveis pela tomada de decisão priorizam continuidade e previsibilidade, criando estruturas que repelem perguntas difíceis e reforçam hierarquias de decisão e concentração do poder de permitir mudanças.
O filho-problema e o funcionário-problema muitas vezes são os que rejeitam focar só nos remendos rápidos e querem questionar o sistema que cria as crises ao seu redor.
Tanto em casa com o filho adolescente, quanto no ambiente corporativo, isso se traduz em pressionar as pessoas para se concentrar apenas nas soluções rápidas para a questão mais imediata à sua frente, sem abrir espaço para questionar o sistema que cria os problemas, ou propor soluções sistêmicas.
A prática de querer focar apenas na solução imediata, na bala de prata, no salvador da pátria que surge no último minuto, acaba conduzindo à ilusão (intencional ou não) de que todas as situações complexas podem ser vistas e tratadas como um problema que no fundo é simples, bastando saber qual o ajuste certo e preciso que o resolve como um todo.
A ilusão da bala de prata leva a (querer) acreditar que todos os problemas complexos no fundo são simples, e podem ser resolvidos com um único ajuste.
Um sintoma desse tipo de análise é que começam a predominar frases que terminam com "simples assim" (após dizer algo que não tem nada de simples), ou "fato" (após expressar algo que é, claramente, uma opinião).
Essa obsessão por encontrar o único parafuso cujo aperto vai resolver o problema da plataforma de petróleo inteira acaba conduzindo a uma miopia sistêmica, revelada pela incapacidade de enxergar a complexidade da situação que está diante dos seus olhos.
A mesma miopia sistêmica que rejeita perceber a complexidade das situações práticas conduz à busca constante de 2 personagens convenientes: o salvador da pátria, e o culpado.
O mesmo comportamento também causa um efeito ainda mais adverso: o crescimento da tendência de encontrar o culpado. Afinal, as mesmas simplificações que levam à busca o salvador da pátria também fazem encontrar a pessoa que vai levar a culpa.
É um modelo que preserva a estrutura de poder, porque ao apontar o dedo para alguém que se torna penalizado pela situação, a responsabilidade real (ou sistêmica) é varrida para debaixo do tapete. Em outras palavras, enquanto o foco é intencionalmente apontado para um indivíduo, a estrutura que cria o erro segue intacta, pronta para repeti-lo e aprofunda-lo.
A realidade varrida para baixo do tapete se acumula, reaparece na forma de uma crise, que a estrutura tende a tentar tratar encontrando um tapete maior.
Nesse tipo de sistema, a realidade indesejada que acaba varrida para baixo do tapete vai se acumulando, até que reaparece na forma de uma crise– que será tratada da mesma forma, com escolhas que não questionam a dinâmica geral, eleição de um salvador da pátria, e de alguém para levar a culpa.
Quando precisar analisar esse tipo de situação, faça a si mesmo algumas boas perguntas:
- Quem se beneficia e quem é prejudicado pela existência do problema? E pela solução proposta? E pelo resultado desejado?
- A solução proposta é a que melhor conduz ao resultado desejado? Se não for, a razão foi exposta ou está oculta?
- Quem propôs a solução se comprometeu com o resultado dela, ou deixou o risco para outras pessoas?
- Havia espaço para outras propostas de solução? Foram analisadas com objetividade?
- A análise retrocedeu até a raiz da situação, ou parou no ponto em que se definiu um culpado ou um herói?
Esse questionário mental não basta para formar boa base para a evolução desse tipo de sistema, mas serve para identificá-lo com mais clareza e aí poder mapear maneiras de evitar os danos que ele causa, ou passar a agir para mudá-lo.
Comentar
comments powered by DisqusComentários arquivados