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Quando a agressão verbal vem disfarçada com voz mansa

Nem toda agressividade se expõe com gestos bruscos e voz alta: às vezes ela vem habilmente oculta na forma de uma conversa – em que um dos lados não terá chance de ser ouvido.

Há conversas agressivas que são bem fáceis de caracterizar, como sinais como tom de voz elevado, gestos ameaçadores ou promessas de punição.

Por outro lado, há agressores mais sutis, que escondem a sua agressividade em algo que, visto à distância, parece uma conversa – mas no máximo é um monólogo, um discurso, ou uma sessão de dissimulação cínica do desejo de desqualificar o outro.

Os agressores em potencial aprendem o que caracteriza assédio ou bullying, e procuram outras maneiras de agir sem evidenciar claramente a agressão.

A comunicação interpessoal vem se tornando mais valiosa nas décadas recentes, e as organizações investem em capacitar suas equipes em várias práticas positivas – como assertividade e comunicação não-violenta –, bem como em comportamentos a evitar, como o assédio moral.

Um efeito colateral dessa exposição às técnicas é que frequentemente elas são (mal) interpretadas como se fossem uma lista finalizada dos limites proibidos. Aí os agressores em potencial usam essa lista como se fosse um manual para definir outras formas de sustentar relações que não são saudáveis, ao mesmo tempo em que preservam (em sua mente) a possibilidade de negar que tenham infringido “as regras”.

Entra em cena o gaslighting

Ao ver uma lista de comportamentos como a que apresentaremos a seguir, provavelmente você pensará que todos os itens são óbvios. É porque esses itens são mesmo evidentes, quando estamos analisando racionalmente – e é aqui que entra a pegadinha.

Nas situações de bullying e assédio, e outras dinâmicas que tomam a mesma forma, um dos componentes comuns é a negação da oportunidade da vítima analisar racionalmente.

O agressor hábil não ergue a voz, não segura a pessoa pelo ombro, não aperta o braço de ninguém, mantém expressão serena, e evita os sinais teatralizados de violência.

É o gaslighting, em que as ações do agressor, bem como as circunstâncias, se unem para fazer a vítima de manipulação duvidar do que está experimentando, e de que haja mesmo alguma agressão acontecendo.

Um agressor hábil não tem dificuldade em fazer essa cena: ele não ergue a voz, não segura a pessoa pelo ombro, não aperta o braço de ninguém, mantém expressão serena, e evita os sinais teatralizados de violência.

Mas a cena é vazia em termos de acolhimento: a conversa importante e necessária acaba sendo evitada, o direito de se expressar é monopolizado, e a oportunidade de construção conjunta é substituída por uma mera projeção de poder.

Minha motivação

Como não acredito que os praticantes desse tipo de agressão sejam leitores do Efetividade, já deixo claro: a razão de eu escrever sobre esse tema no blog não é tentar convencer ninguém a deixar de praticar esses atos (eu também faço isso, só que fora do blog – sou integrante de um grupo de combate ao assédio moral).

Conhecer antes essa lista ajuda a evitar ser vítima de assédio, e pode ajudar a fazer cair a ficha de seu amigo ou amiga que está vivendo a situação.

Eu escrevo sobre isso aqui no blog por 2 motivos principais:

  1. Para que você, leitor, veja a lista e lembre dela quando alguém praticar algum desses atos. Praticar uma vez pode até ser normal, mas merece registro e, caso se repita, é indicativo forte de um relacionamento dissonante, tóxico ou agressivo, do qual compensa se defender (no mínimo), ou se afastar.
  2. Para que as suas amigas e seus amigos que estejam passando por uma situação dessas se beneficiem se você encaminhar e pedir pra eles gritarem bingo se gabaritarem a lista.

Lembrem que o tema é sério, e qualquer leveza no tratamento dele (como exemplifiquei acima) só pode ser admitida se for ferramenta para permitir o início da abordagem.

A lista de agressões verbais disfarçadas

Preparei uma lista dos casos mais comuns, e repito: a maior parte delas não é motivo para cartão vermelho imediato. Como nos casos de assédio moral, quase sempre o que caracteriza a situação é a repetição sistemática – e nesse caso, não há desculpa do tipo "ela é assim mesmo" ou "ele foi criado em outra época": é uma relação assimétrica e sem equilíbrio, sim.

Vamos à lista:

  1. Discordar sem ouvir a conclusão – “Já entendi, pode parar, isso aí não dar certo”, ou “Nem vou retornar o contato, já sei o que ela quer falar”. É o mesmo que interromper a exposição da outra pessoa a partir de uma suposição de como ela concluiria, e já antecipando sua decisão com base nessa suposição, cassando a palavra do interlocutor.
  2. Desqualificar a reação – Frases como “Deixa de drama”, “Cadê o senso de humor?”, “O mundo anda muito chato” indicam que, além de manter o que foi dito, a pessoa também invalida o direito da pessoa se sentir ofendida ou agredida – ela quer o papel de árbitro do que ofende ou não.
  3. Classificar sua opinião como se fosse absoluta – são frases que começam com “a verdade é que”, ou que terminam com “isso é fato.”, ou então com “simples assim”. Assumir sua opinião como se fosse a única certa, ou como se fosse argumento suficiente, ou como se tivesse o superpoder de simplificar situações complexas, é um exagero que corresponde diretamente à expectativa de convencer na marra: afinal, nem há mais nada em discussão, já foi anunciada a única posição possível.
  4. Se remover da situação coletiva – “A minha parte eu fiz.” Embora esteja falando apenas de si, a tradução da frase é “percebi que há acusações e queixas sobre o grupo, mas não quero contribuir com solução nem defesa, vocês que se virem”. Ao negar o impacto de suas ações, a aposta é que a eventual culpa ou a responsabilidade por se defender reste a quem não fizer o mesmo.
  5. Silêncio protelatório – Ao calar sem concluir a discussão, mas manter a posição que lhe convém, e aguardar para usá-la em outra ocasião, sem dar à outra pessoa a oportunidade de levar o debate adiante, vemos uma desconsideração que chega bem próxima à desonestidade intelectual de fazer uma falsa afirmação.
  6. Se escorar na autoridade ou na longevidade – “Eu tenho 15 anos de casa, vai por mim, não adianta tentar isso aí.” Experiência, tempo de casa, certificação, formação e cargo são elementos valiosos, mas não são argumento suficiente para esgotar discussões, exceto quando usados na expectativa de ter poder de calar o outro.

Todos esses exemplos demonstram maneiras de disfarçar a agressividade como se fosse uma conversa. Se você notar que pratica alguma delas, é hora de evoluir!

Caso esteja frequentemente exposto a alguma dessas frases, ou a um combo delas, é hora de se fortalecer para poder procurar a melhor forma de se defender ou, se possível, se afastar.

A não ser, é claro, se a situação for de assédio, crime ou ameaça à sua integridade – neste caso, procure proteção imediatamente, e orientação experiente sobre como proceder quanto à pessoa responsável.

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