Organização • Produtividade pessoal • Atitude
Efetividade. Agenda em dia e caixa de entrada vazia

Churrasco: como inclui os amigos vegetarianos na festa

Em tempos de crescente ativismo pró-meio-ambiente, às vezes me surpreendo em não encontrar uma campanha mais visível contra esta instituição cultural secular: o churrasco. Pessoalmente, procuro reduzir o impacto que meus hábitos causam sobre o ambiente, e no caso do churrasco isso se traduz em atenção especial à certificação de origem da carne e do carvão empregados, por exemplo.

Mas os novos níveis de posicionamento ecológico geram mais um efeito sobre o churrasco nosso de cada dia: a probabilidade crescente de que algum dos convidados (ou agregados dos convidados) seja vegetariano, ou restrinja seu consumo de carne. Isso sempre ocorreu, e continuará a ocorrer, mas o aumento dos números destas facções faz com que aumente o interesse potencial em planejar inseri-los na festa (desde que o prato principal não lhes cause questões de ordem moral, ou de consciência).

Afinal, se a vegetariana ou o vegetariano em questão foram convidados para participar do evento, parto aqui do princípio de que eles são importantes para você (ou para alguém que é importante para você), e que a satisfação deles também é de seu interesse como anfitrião, mesmo considerando que o churrasco é um evento que tradicionalmente orbita ao redor do consumo de carne.

Churrasqueiros extremistas, finjam indignação

Aliás, o churrasco orbita em uma série de dogmas, mas são dogmas interessantes, porque variados: há quem diga que churrasco de verdade tem que ser com a carne em peça, mas há quem fatie. Uns dizem que precisa ser no espeto, mas outros preferem a grelha, e outros ainda fazem maravilhas usando uma chapa, ou mesmo aceitam envolver as peças em papel laminado.

E o tempero? A tradição sulista comanda pelo uso exclusivamente do sal grosso, mas o sal refinado acaba caindo bem em peças fatiadas, e mesmo no sul basta ir a alguma festa de igreja em colônias alemãs para comer um delicioso churrasco temperado com vinha d’alhos. Até a brasa do carvão, antes soberana, agora ganha concorrência de pedras aquecidas e até das churrasqueiras a gás nas varandas de quem não pode acender um braseiro de verdade no apartamento (mesmo que, se pudesse, acenderia um fogo de chão no meio do hall de entrada).

No caso dos churrasqueiros da escola tradicionalista (e que acreditam conhecer a única resposta válida para todas as questões acima), que não aceitam oferecer nenhuma alternativa à carne vermelha, sugiro que façam o de sempre: digam como acham que deve ser um churrasco de verdade, critiquem agora este artigo, veementemente como de costume, dizendo que é churrasco de gente fresca, tchê, e mais tarde, depois de descalçar a alpercata, retornem quando ninguém estiver olhando, para saber qual é a alternativa que vou propor ;-)

Categorias variadas

Tudo seria mais fácil de planejar se as pessoas que não consomem carne formassem um conjunto homogêneo, com regras gerais. Mas não é assim que funciona: há aqueles que não comem carne por razões de dieta (ou preocupação/restrição de ordem fisiológica), há os que não comem carne por variadas razões de consciência ou posicionamento moral, há aqueles que rejeitam apenas as carnes vermelhas mas se deleitarão com uma sobrecoxa ou mesmo uma linguiça de frango, há aqueles que aceitam um peixinho na brasa, e no extremo da balança há os que rejeitam consumir ou usar qualquer produto de origem animal.

As táticas para atender a cada um deles variam, desde que você investigue de antemão a preferência de cada um. A operacionalização, como em qualquer empreendimento, vai depender também dos recursos disponíveis: talvez você possa oferecer as opções variadas para cada um dos gostos (peixe, frango e vegetais), ou talvez seja necessário recorrer ao mínimo múltiplo comum: uma alternativa única que atenda a todos que não comem o prato principal.

Vai comendo esse pãozinho, essa saladinha verde...

Quando uma pessoa desses grupos chega a um churrasco sem avisar, corre o risco de ter que se sustentar com base no pão (com vento a favor, será pão com pasta de alho no espeto) e na saladinha com 2 tipos de alface, uma cenourinha ralada e um pepino em conserva que o anfitrião colocou no centro da mesa só pra decorar.

Se as condições estiverem especialmente favoráveis, vai haver também uma maionese de batata que vai estar de acordo com suas restrições (sem ovo cozido, por exemplo), e uma farofa feita sem cubinhos de nenhum tipo de carne.

Se for o seu dia de sorte, o churrasqueiro vai ter preparado espetinhos mistos (ou o que por aqui chamamos de "xixo"), com cubos de carne entremeados por pedaços generosos de cebola, tomate e pimentão - e aí de repente até dá para negociar uma solução intermediária.

Mas, de modo geral, o vegetariano corre sério risco de se sentir sobrando no aspecto gastronômico do evento: nenhum dos pratos principais o atenderá.

Buscando alternativas sem abrir mão do essencial

Churrasquear é, inegavelmente, uma atividade repleta de tradições, e o maestro do evento (aquele que esquenta a barriga na frente da churrasqueira e resfria no isopor de cerveja) geralmente vai resistir ao que seria a alternativa sonhada pelos vegetarianos: fazer como as churrascarias que, movidas pelo óbvio interesse de aumentar seu público-alvo, oferecem junto ao churrasco uma série de outros pratos principais: uma lasanha, um sushi...

Também sou partidário da idéia de que os pratos principais de um churrasco saem da churrasqueira, e o forno e o fogão servem apenas para acessórios e complementos, e neste sentido nunca me recusei a preparar um espeto a mais de aves ou peixes para atender a estas demandas especializadas. Mas quando havia interesse em atender a quem não come nenhum tipo de carne, eu ficava sem soluções que saíssem diretamente da churrasqueira.

E ao longo de muito tempo chegavam sugestões de experimentar como alternativa adicional as beringelas e as abobrinhas. Mas a idéia pouco me atraía, pois o modo como eu as via sendo preparadas em pouco lembrava a essência de um componente de churrasco: o vegetal era aberto e escavado, recheado, preparado em etapas, gratinado, e assim por diante - nada que seja cômodo de fazer enquanto se gerencia vários outros espetos e um copo gelado que insiste em ficar vazio periodicamente.

Até cheguei a experimentar a beringela como componente dos espetinhos do xixo, mas não agradou em nada: nem sabor, nem consistência, nem aparência.

Entra em cena a obra do acaso: filetando os legumes

Mas morar no Sul do Brasil é estar exposto permanentemente à força cultural do churrasco. Algum dia, nas primeiras horas insones de uma manhã de domingo, assisti sem querer a um gaúcho daqueles lá da fronteira com o Uruguai, de bombacha e lenço (só faltou a espora) apresentando em um programa de tradições gaúchas na TV local algo sobre como fazer quando há necessidade de recorrer a alguma dieta por ordens médicas mas o vivente quer continuar fazendo e curtindo seus churrascos com a família e com os amigos. Ele não chegou ao extremo de propor um churrasco sem carne, mas deu como alternativa a dica que me faltava sobre as abobrinhas e beringelas.


Uma beringela e meia

E a dica do gauchão velho era realmente simples: ao invés de salamaleques envolvendo abrir, escavar, rechear, gratinar, etc., ele deu uma de Colombo: colocou o legume em pé e o fatiou (no sentido do comprimento), formando pedaços cujas dimensões lembravam as de um filé de peito de frango.

E não é só nas dimensões que estes "bifes de legume" se aproximavam de um filé de frango: a forma de tratar é parecida. Se forem simplesmente colocados a seco sobre a brasa, vai ficar ressecado, esbranquiçado e com gosto de isopor fervido. Por isso você precisa espalhar os filés em uma tábua de corte, regar generosamente com azeite de oliva (para servir de veículo) dos dois lados, aí furar um dos lados com um garfo (sem exageros - 2 espetadas são suficientes) e colocar os temperos que mais lhe agradarem, em uma dose maior do que se você estivesse temperando uma carne para assar no forno, porque a carne absorve bem mais. O guasca velho fazia com pasta de alho, mas eu uso combinações variadas de sal, molho inglês, shoyo, molho de pimenta, pimenta preta moída, ou o que mais estiver sobrando em cima da bancada - ou de acordo com as convicções dos convidados. Uma alternativa é chamar algum deles para a tarefa de temperar, ou ao menos para escolher os temperos.

O detalhe que faz toda a diferença é o tempo: estes legumes não são campeões de velocidade em absorver o tempero, então é bom deixá-los repousar por algum tempo - eu uso o consumo de 2 ou 3 latinhas de cerveja como métrica. Depois é só ir colocando na grelha ou chapa, aos poucos, virando apenas uma vez. A beringela fica pronta rápido, e a abobrinha demora um pouco mais, mas não posso oferecer indicadores: vai depender da sua grelha, da temperatura do fogo, da altura da churrasqueira, entre outros fatores.

Cada um na sua

Claro que você sempre continuará a ter a alternativa de não convidar vegetarianos para o seu churrasco, ou de fazê-los se resignar a comer o pãozinho e a salada verde.


Abobrinhas italianas

Mas se você quiser experimentar fazer algo diferente, recomendo tentar alguma variação das instruções acima. Além de ser simpático e inclusivo, o resultado fica saboroso, e agora raramente passa um churrasco em que eu deixo de preparar este complemento (em pequena quantidade, afinal a estrela da festa é a carne), que geralmente faz sucesso até quando não há vegetarianos, e mesmo entre os fundamentalistas e céticos - mesmo que eles demorem a dar o braço a torcer.

E se você tiver esta intenção de agradar aos convidados que não comem carne, procure se lembrar de mais uma dica: não seja o anfitrião chato que fica o tempo todo tentando "convertê-lo" em carnívoro e criticando a sua opção. Afinal, o incômodo que o convidado sente quando tentam lhe convencer a deixar de lado sua preferência pelo vegetarianismo (ou movimentos similares) deve ser comparável ao que sentimos quando alguém vem nos patrulhar pelas nossos próprios hábitos alimentares e práticas ecológicas. E churrasco não deveria servir de pretexto para chatice!

Sorteio de ingresso: workshop "Cuide do seu dinheiro", em SP

O Ricardo Pereira, da equipe do vizinho blog Dinheirama (cujo conteúdo já apareceu por aqui anteriormente) mandou a dica:

Estamos promovendo no próximo dia 14/10 em São Paulo juntamente com o Consultor de Investimentos Leandro Martins o Workshop "Cuide do seu dinheiro e alcance a independência Financeira". O evento será no Hotel Golden Tulip Park Plaza, na Alameda Lorena, 360 Jardins. O início será às 19h com welcome coffee.

Que tal?

A turma do Dinheirama entende do que fala, então eu recomendo sem medo este evento a quem estiver em SP na semana que vem, inclusive por saber que o criador do site, Ricardo Navarro, faz parte da programação - e mesmo quem não conhece o blog mas tem interesse no assunto já pode ter ouvido falar dele pela repercussão positiva que teve o seu livro "Vamos Falar de Dinheiro?".

Os colegas de lá estão oferecendo um ingresso de cortesia a ser sorteado aos leitores do Efetividade, e dessa vez eu vou simplificar as coisas: quem vai estar em São Paulo na semana que vem e tem interesse em ir ao evento só precisa comentar aqui neste post, até o meio-dia de sexta-feira (9/10/2009) - mas não esqueça de preencher corretamente o campo de e-mail do comentário, senão não vai dar certo o contato. Na tarde de sexta eu sortearei, divulgarei o resultado aqui mesmo, e informarei os colegas do Dinheirama para que eles façam o que mais for necessário, ok?

Efetividade ao contrário: há quantos "acidentes esperando para acontecer" na sua vida?

Cada vez que acontece um acidente de maior porte com aeronaves, somos lembrados pela imprensa de que estas ocorrências são consequência de um conjunto de circunstâncias imprevistas (ou falhas, dependendo do caso) encadeadas, e que bastaria que uma delas não tivesse ocorrido para que o acidente fosse evitado.


Um acidente esperando para acontecer?

Como geralmente causam grande número de fatalidades, estes acidentes são mais visíveis na mídia - só que um acidente de menor porte e gravidade, mas que ocorre a alguém próximo, pode ser sentido de maneiras bem mais evidentes.

Um exemplo rasteiro (e real, e ainda não resolvido - pode ir lá na esquina da Av. Dourados com a Av. das Algas e verificar!) do encadeamento de causas que conduz a acidentes, funcionando de maneira oposta ao conceito de efetividade:

  1. a uns 150m da minha casa, em Florianópolis, há um cruzamento em forma de rótula em que andavam acontecendo colisões.
  2. a prefeitura foi chamada, e instalou 4 lombadas, uma em cada acesso à rótula, sempre a 2m da própria rótula - potencialmente tarde demais para evitar as colisões.
  3. as lombadas, bem altas, não foram pintadas nem sinalizadas, o que acabou mudando a natureza dos acidentes que aconteciam por ali, especialmente à noite, com carros perdendo pedaços, e colisões traseiras quando alguém percebia o obstáculo e freiava em cima da hora.
  4. a prefeitura foi chamada de novo, não pintou as lombadas, mas colocou placas de sinalização de lombada exatamente ao lado delas. Como as lombadas estavam a 2m da rótula, isso significa que as novas placas estão agora 50cm à frente das placas de "PARE" que indicam o cruzamento, impedindo completamente que elas sejam vistas pelo motorista.

Qual será o próximo passo? Aguardo os próximos capítulos...

Só que os acidentes do dia-a-dia, mesmo pequenos, nem sempre são causados por estupidez administrativa. Pessoas conscientes e plenamente capazes deixam de prevenir situações que escapam facilmente do controle (como as imagens do site ThereIFixedIt que ilustram este texto), envolvendo eletricidade, gás, alturas, veículos, construções e tantos outros elementos do nosso dia-a-dia. E elas podem ter graves consequências para nossas vidas, como percebe quem chega a estar próximo de um acidente sério.

A atitude de prevenção é simples, e no caso de nós, os amadores, pode se basear na assunção de que os acidentes estão à espreita, esperando pelas condições que permitem que eles ocorram. Partindo do exemplo positivo (mas mesmo assim imperfeito) do sistema aéreo, quero discorrer em seguida sobre o recente e trágico caso do cortador de grama de Araçatuba para, a partir das diferenças evidenciadas, lançar o questionamento sobre os acidentes em potencial que não estamos evitando.

Todas as salvaguardas e redundâncias podem ser insuficientes

Isso é assim porque todo o sistema aéreo é projetado com foco na segurança, com as redundâncias e salvaguardas necessárias para evitar o que pode ser previsto. Para exemplificar: num acidente recente em que a pista curta do aeroporto central de São Paulo foi vista como vilã, as causas investigadas incluíam o coeficiente de atrito da pista, a ausência de ranhuras ("grooving"), a chuva, erro da tribulação, erro do controle de vôo e... a pista curta.


Aproximação ao Aeroporto de St. Maarten, nas Antilhas

Algum dos fatores acaba sendo determinante, mas o acidente precisa dos demais também - senão ele não consegue acontecer. Às vezes o acidente acaba tendo entre suas causas também um comportamento intencionalmente inseguro (exemplo: piloto de jatinho fora da cobertura do controle aéreo desliga "transponder" e aumenta seu risco de colisão), ausência intencional de procedimento de segurança (exemplo: piloto que errou a rota não entra em contato com o solo - preocupado com sua carreira? - e acaba caindo sem combustível e longe de onde deveria estar), ou mesmo possível erro de projeto (reversor que abre durante a decolagem, pitot que produz leituras erradas de velocidade, ...)


Um acidente esperando para acontecer?

Mas para cada situação em que o acidente chega a acontecer, não temos idéia de quantos outros incidentes ocorreram e as salvaguardas funcionaram como deviam. Não apenas as situações em que o sistema secundário ou de redundância foi ativado automaticamente como deveria ser, mas também aquelas em que a falha em um ponto foi compensada pelas medidas tomadas em outro ponto. Por exemplo:

  • A pista é curta e escorregadia, a chuva apertou, mas o piloto arremete a tempo
  • O controle de tráfego autoriza 2 vôos a usar a mesma pista ao mesmo tempo, mas as tripulações percebem
  • Um avião voa fora da rota prevista, e o sistema anti-colisões do outro evita o choque
  • etc., etc.

Não-acidentes raramente são notícia, mas todos os dias há milhares de pessoas se dedicando a prevenir e evitar a ocorrência destes sinistros.

O cortador de grama de Araçatuba: adeus às salvaguardas

Discorrer sobre acontecimentos trágicos recentes sempre corre o risco de resvalar no mau gosto, mas o exemplo é tão claro e ilustrativo que seria difícil não mencionar pelo menos alguns de seus detalhes principais.

O G1 resume o desfecho:

Casal morre eletrocutado quando usava cortador de grama: Um casal morreu eletrocutado em Araçatuba, a 530 km de São Paulo, na noite de sexta-feira (2). M. V. S., de 38 anos, usava um cortador de grama quando ocorreu a descarga elétrica, que atingiu também a mulher dele, M. S. V. C., de 49 anos. (...) De acordo com a família, M. recebeu a descarga elétrica enquanto trabalhava com o aparelho. A mulher tentou ajudá-lo, mas também foi eletrocutada.

Acidentes e fatalidades envolvendo máquinas de cortar grama eram um acontecimento mais comum na minha infância, porque os cortadores ainda não eram produzidos com as salvaguardas de hoje, incluindo um bom sistema de isolamento elétrico. Só que o infeliz protagonista usava um modelo bem antigo (foto abaixo), cuja haste de controle era de metal condutor, sem nem mesmo manoplas isolantes.


O cortador com sua haste sem isolamento das mãos

Ilustrando a situação das salvaguardas, a notícia nos dá várias pistas dos outros fatores que contribuíram para a formação do acidente, e para o seu agravamento:

  • O isolamento normalmente não seria tão exigido (exceto como precaução importante), mas no dia do acidente a grama estava molhada, após uma chuva recente.
  • Em caso de choque elétrico, a providência mais urgente que uma testemunha pode tomar é desligar os disjuntores, cortando a corrente, mas a esposa aparentemente cedeu à reação instintiva e aproximou-se da vítima, sendo assim eletrocutada em conjunto.
  • Neste tipo de descarga, existe a possibilidade de os disjuntores desarmarem sozinhos - em grande parte, é para isto que eles estão lá. Mas o cortador de grama estava ligado diretamente na caixa de distribuição de energia, que em geral abriga, na chave geral, o disjuntor intencionalmente menos sensível de toda a instalação.

Não estou querendo encontrar culpados ou responsáveis pela situação, mas os pontos acima ilustram pelo menos 4 decisões que, se tivessem sido tomadas de outra forma, poderiam ter evitado o acidente, ou ao menos reduzido seu dano:

  • Não usar uma máquina fora das condições mínimas de segurança
  • Não usá-la em uma situação especialmente insegura (com o terreno molhado)
  • Afastar-se da vítima que está sendo eletrocutada, e desligar a corrente
  • Conectar a máquina a uma tomada apropriada, com proteção adequada de disjuntor.

Parando para pensar, lembro claramente de ter visto cortadores de grama antigos e tomadas externas, sem proteção e ligadas diretamente ao quadro geral, em muitas casas de praia e chácaras por onde passei. E embora eu sempre tome a precaução de instruir as pessoas ao redor sobre o que fazer em caso de acidente com eletricidade quando uso ferramentas elétricas (especialmente a furadeira, mesmo com seu isolamento duplo), consigo entender a reação instintiva que faz a esposa aproximar-se do marido que está sendo eletrocutado, ao invés de correr para o quadro de eletricidade.

Lidar com este tipo de situação, prevendo as circunstâncias inseguras, é uma das atitudes que contribuem para a segurança do lar, do trabalho, do trânsito e de todos os demais âmbitos em que atuamos.

"Isso só acontece com os outros"

O risco deste tipo de acidente é difícil de quantificar, e aí acaba prevalecendo a ilusão de que conosco não acontece, na nossa família jamais aconteceu, e nós sabemos lidar com estas condições, mesmo que para os outros elas sejam inseguras.


Um acidente esperando para acontecer?

Mas aí que está: mesmo que fosse verdade que você sabe lidar com uma condição que para os outros é insegura, a verdade é que mesmo para os outros ela sozinha provavelmente não provocaria o acidente. O acidente ocorre quando ela se junta a outras condições, incluindo imperícia, erro humano, condições climáticas adversas e muitos outros exemplos - e eles também podem acontecer com você...

Da mangueira do fogão ao freio do carro: um inventário dos acidentes potenciais da sua casa ou empresa

Assim, uma forma de reduzir o risco geral de acidentes é procurar antecipadamente as causas potenciais deles, e aí agir adequadamente para removê-las.


Um acidente esperando para acontecer?

Alguns exemplos de questões que podem levar a verificações importantes:

  • Há quanto tempo você não revisa a mangueira de gás atrás do seu fogão? Ela não está encostada no fundo do forno?
  • Tem feito revisão periódica dos pneus, luzes e freios do seu carro?
  • Há móveis ou objetos que permitem que crianças pequenas cheguem às janelas?
  • Os remédios estão fora do alcance de crianças e animais domésticos?
  • As instalações elétricas e hidráulicas estão em dia? Nada de choques no chuveiro, nem disjuntores desarmando por sobrecarga?
  • Alguém se debruça para fora do parapeito para lavar vidraças? Alguém faz pequenos reparos de eletricidade sem desligar os disjuntores?
  • Não há obstáculos que favoreçam tropeçoes ou escorregões nos caminhos mais comuns?
  • Aparelhos e ferramentas fora de condições de segurança são consertados (ou reciclados)? Ou você vai deixando para a próxima vez, porque acha que agora ainda dá para usar?
  • Locais de perigo potencial elevado, como piscinas, estão adequadamente protegidos?
  • Escadarias, porões e sótãos estão bem iluminados?

Claro que se trata apenas de uma pequena lista de exemplos, para demonstrar a atitude necessária à prevenção permanente dos acidentes. Se você quiser uma referência mais detalhada, o Corpo de Bombeiros Militar de Alagoas tem uma lista mais completa de causas de acidente e suas soluções.

Prevenir é mais econômico e efetivo do que corrigir (e lamentar) - colocar telas de proteção nas janelas da minha casa não foi barato, mas a tranquilidade que elas geram não tem preço, e a perda que a ausência delas podia ajudar a causar seria irreparável.

O exemplo trágico do cortador de gramas foi escolhido por ser recente e ilustrativo, mas todos os dias acontece uma infinidade de acidentes que teriam sido facilmente evitáveis: crianças caem de janelas, vazamentos de gás explodem, instalações elétricas inseguras eletrocutam, escadas mal-iluminadas fraturam, pneus carecas causam derrapagens, etc.

Pensar que só acontece com os outros é uma ilusão. Mas para diminuir as chances de acontecer com você, prevenir é o melhor caminho!

Crise, oportunidade, preparação e... METEOROS

Crise é uma situação de tensão, momento indefinido com problemas ou riscos inquietantes, ou uma conjuntura desfavorável ao bem-estar dos envolvidos.

Todos nós passamos por crises: crise econômica, crise política, crise de relacionamento, crise de saúde... elas fazem parte da vida, e muitas vezes chegam até mesmo a ser importantes para o desenvolvimento dos envolvidos, já que - dependendo da situação - aquilo que fazemos para nos adaptar a elas permite até mesmo que o seu fim marque o início de um período de crescimento que supera a posição em que nos encontrávamos quando ela começou.

Por outro lado, às vezes o esforço de adaptação supera a capacidade de alguns dos envolvidos, e eles não conseguem manter-se integralmente até o final dela. E o efeito varia de acordo com o âmbito em que a crise ocorreu: se for econômico, a empresa pode quebrar, ou a família pode ver sua situação sócio-econômica piorar; se for de relacionamento, o casamento pode acabar; se for financeiro, a pessoa pode ter seus bens tomados, e assim por diante.


Não é preciso uma crise planetária para nos atingir

Para a maioria das pessoas, as crises acabam sendo percebidas muito mais no âmbito local do que no global, como aliás é natural. Nessa visão, a crise mundial do crédito é apenas uma notícia, o fechamento da fábrica na cidade vizinha é uma preocupação, mas o filho que ficou sem emprego é um problema real.

Passamos a vida chamando de importantes os grandes projetos e as realizações mais visíveis, e de triviais as pequenas conveniências e os fatos do dia-a-dia - mas quando uma crise atinge aquilo que nos acostumamos a considerar trivial, somos colocados à prova de uma maneira muito mais intensa do que quando ela apenas impede os projetos de longo prazo e o completamento das grandes realizações.

Preâmbulo 1: o adiamento do ENEM

Soube pela imprensa de que o ENEM, exame nacional aplicado a quem termina o ensino médio, e que em muitos casos já serve para classificar os alunos para uma vaga na faculdade, foi adiado em razão da "suspeita" de que a prova vazou. Perceber as diversas facetas da situação me inspirou a gastar 45 minutos do meu tempo de almoço para compartilhar este artigo com vocês.

A prova seria realizada nacionalmente neste final de semana, e em razão do seu caráter classificatório, bastante gente estuda e se prepara para obter um resultado superior - estas pessoas, se não erraram a receita, provavelmente planejaram para estar em seu pico de condições escolares neste final de semana, e agora terão que administrar a situação, sabendo que a prova deve ser remarcada apenas para daqui a mais de um mês, coincidindo com o período de vestibulares de várias instituições bastante concorridas.

Mas não são só elas que passam pela crise: diversas faculdades que usariam o resultado do ENEM em seu processo seletivo terão que se adaptar ao atraso, porque agora as notas do exame podem sair só depois do período de matrículas de muitas delas. As empresas envolvidas na preparação do certame também precisarão ajustar seus calendários, as escolas que cederam instalações para realizações das provas idem, e os cursinhos preparatórios irão se virar para oferecer "intensivões" adicionais.

É um exemplo típico de crise, com algumas pessoas beneficiadas e a maioria enfrentando um problema sob aspectos diferentes. E tem similaridade com o exemplo que meu avô usava, falando das comunidades de pescadores durante os períodos de tempestades e mar agitado: alguns vão pro rancho reforçar as redes e dar manutenção no equipamento, e outros vão pro bar tomar pinga. Neste caso, alguns estudantes vão continuar estudando (e até usando como apoio a prova que vazou), e outros vão aproveitar para colocar em dia seus seriados da TV. As condições da crise são as mesmas para todos, mas cada um tem sua resposta a ela, e viverá a consequência.

Dica extra: aproveite para reler "Concursos e provas: como estudar com efetividade e se dar bem".

Preâmbulo 2: a crise das atualizações do Efetividade

Crises estão aí para serem superadas, e é o caso desta escassez de novos artigos aqui no Efetividade. Passo no momento por uma situação de saúde na família, que me leva a repensar todas as minhas prioridades, e está difícil conseguir manter o mínimo necessário (na minha opinião) de um artigo meu por semana por aqui, ao mesmo tempo em que me dedico a isso.

Esta situação está sob controle, e minha dedicação a ela (que faço com gosto e por opção) me traz uma série de resultados positivos conforme a situação se desenvolve e se aproxima de uma solução, como aliás é comum em crises. Mas a escassez de tempo para dedicar a escrever é uma realidade, e talvez se mantenha um período continuado. Conto com sua compreensão!

Mas, como veremos mais abaixo, a inovação também tem seu lugar como instrumento para resistir a crises, e já tenho uma ou duas idéias que pretendo testar para aumentar minha produtividade e gerar material inédito para cá nos momentos que tenho disponíveis para isso, uma ou duas vezes por semana.

Chega de preâmbulos, e vamos ao estudo do tema de hoje!

Crise e oportunidade - a lenda do ideograma chinês

Diz um velho e surrado clichê que o ideograma chinês para a palavra crise é a soma dos ideogramas de perigo e de oportunidade. A conclusão faz sentido, mas eu duvido: acredito em quem diz que esta interpretação tão conveniente se trata de um erro de tradução.


Crise (de lado pra caber melhor na página)

Mas mesmo que essa questão alegórica chinesa seja apenas uma lenda, a idéia de elas representarem oportunidades faz sentido. Nem todas as organizações (e pessoas) submetidas a uma condição de crise reagem da mesma maneira, e a reação faz toda a diferença não apenas para a chance de sobreviver bem até o final da crise, mas também sobre como será a condição de continuar se desenvolvendo ou competindo ao final da crise.

Para ficar num exemplo corporativo que eu conheço, simplificado em prol do entendimento: na cidade em que eu morava no começo dos anos 1990, havia 3 indústrias metal-mecânicas de porte similar. Veio uma crise daquelas bem típicas daquele período de economia mais instável que a de hoje, e uma delas logo recorreu a demissão em massa, outra concedeu férias coletivas, e a terceira (melhor preparada para enfrentar a crise) reduziu o expediente e parou a produção, mas aproveitou para realizar treinamentos sobre produção, qualidade e outros temas, no horário do expediente, com seus funcionários. Aposta arriscada? Sem dúvida, mas um dia a crise acabou, e a primeira empresa fechou, a segunda encolheu (hoje ela faz mangueiras de jardim), e a terceira rapidamente cresceu, e ainda atraiu os funcionários e clientes que as duas primeiras perderam.

Para uma delas, que estava preparada, a crise foi uma oportunidade. Para as outras, foi uma lápide ou um obstáculo intransponível.

Crise e preparação - "Deixa a vida me levar"

Nem sempre estamos preparados especificamente para a crise que nos acomete, até porque nem sempre dá para antecipar a natureza de uma crise. No exemplo acima, até se podia saber que algo estranho aconteceria com a economia (afinal, era ainda o tempo dos "pacotes"), mas quem adivinharia que o governo congelaria a poupança e escancararia as importações?

Sabemos que hoje as epidemias surgem e se espalham com mais rapidez, mas quem anteciparia a natureza do vírus e a data em que surgiu a nova Gripe A, e por onde ela se espalhou primeiro? O hemisfério norte teve a sorte de que por lá ela chegou durante a estação quente, e para nós foi o contrário, mas antes que acontecesse, ninguém sabia - e para manter a mesma metáfora, usualmente produzir a vacina contra uma crise específica demora, e só gera resultado depois que a crise teve efeito de causar bastante estrago.

Mas algumas pessoas e organizações estão melhor preparadas para os cenários de crise que conseguem antecipar, enquanto outras se contentam em adotar a "metodologia Pagodinho" e deixam a vida as levar. No advento da crise, é provável que a maioria dos integrantes de cada um dos grupos encontre resultados em sintonia com as suas atitudes de preparação.


Não encarar a crise não faz com que ela vá embora

Para variar o exemplo: quando chegam as crises do mercado financeiro, muitas vezes quem diversifica seus investimentos com foco na estabilidade e segurança sente um baque menor que o do vizinho, mas isso tem custo: nas épocas de tranquilidade, seus picos de rendimento tendem a não ser tão altos quanto a de quem arrisca mais. Por outro lado, quem arrisca e concentra investimentos obtém picos de rendimento maior, mas aí o baque da crise pode ser sentido de forma muito mais aguda.

Também é o caso da trapalhada no ENEM: estudantes que têm uma rotina de estudo ao longo de todo o ensino médio possivelmente terão seu resultado menos afetado pelo atraso de 45 dias da prova, do que aqueles que deixaram para estudar em cima da hora contando com um pico de memorização mapeado especificamente para o próximo final de semana.


O furacão está chegando...

Aqui no Brasil isso não é tão comum (previsão antecipada de calamidades naturais iminentes é raridade), mas o exemplo internacional é bem vívido, por isso recorro à imagem vista em tantos filmes de catástrofe: na hora de evacuar a cidade para fugir da onda gigante, dos aliens, do vulcão, do meteoro ou da crise da vez, quem já estava com o tanque do carro cheio leva grande vantagem, e quem não estava tem que encarar o pânico adicional na fila extra do posto de gasolina, antes de rumar para uma área segura.

Resumindo a conclusão deste sub-tópico antes que eu me alongue demais nele: nem sempre dá de prever uma crise específica, mas elas chegam mesmo assim, muitas vezes com pouco aviso. Estar preparado para elas é uma questão de estratégia, atitudes e hábitos - como o de manter o tanque do carro cheio, no exemplo acima, ou de estruturar sua carteira de investimentos sem colocar todos os ovos em poucas cestas. Na hora da crise, sempre é bom dispor de reservas, alternativas e pontos de apoio para recorrer.

Dica extra: Aproveite para ler "Segurando seu emprego, ao mesmo tempo em que se prepara para o caso de ser demitido".

Crise, adaptação, inovação, prioridades e o efeito dominó

A natureza das crises varia, mas em geral elas se caracterizam também pelo aumento do grau de dificuldade para realizar as atividades desejadas, pela escassez dos insumos e recursos necessários para realizá-las, e pela necessidade de abrir mão de itens a que damos valor.

Para exemplificar: é mais difícil organizar a festa de aniversário dos filhos quando o casamento está em crise, é difícil completar a construção do prédio quando a economia está em crise, é difícil manter a casa de praia, ou o segundo carro, quando as finanças da família estão em crise.

  • A crise muda nossas prioridades: Diante da notícia de que houve complicação séria na gravidez da esposa, espera-se que o ótimo profissional mantenha intacta sua agenda de compromissos e viagens? Assim como não sabemos quando uma crise vai começar, em geral é difícil saber antecipadamente quando ela vai acabar. É por isso que a noção de prioridade precisa ser bastante exercitada em períodos de crise, para que nos concentremos no que nos dá resultado, ou em manter aquilo de que não podemos abrir mão: assim como a empresa precisa reduzir custo e selecionar muito bem quais investimentos não serão suspensos, a família precisa reduzir os gastos supérfluos, e assim por diante.


    Fila do pão nos EUA durante a grande depressão da década de 1930

     

  • A crise exige adaptação: As margens de segurança que os precavidos costumam manter em tudo que fazem ou negociam acabam precisando ser diminuídas, o que era realizado de forma supérflua fica suspenso, e as reservas existentes começam a ser empregadas. Algumas pessoas e negócios florescem nas crises, mas a maioria delas precisa mesmo se adaptar à escassez e dificuldade abrindo mão (ainda que temporariamente) da continuidade de tudo que não for essencial.
  • A crise pode ser um catalisador da inovação: É a hora de pesquisar formas de ganhar produtividade e eficiência, ou de oferecer às pessoas a solução para seus novos problemas - nem tudo pode se resolver com cortes e reduções. Lanchonetes começam a oferecer refeições mais completas (e baratas) para as pessoas que não podem mais almoçar no restaurante de antes, surgem opções de financiamento de bens em prazos antes impensáveis, idéias ousadas de redução de custos (incluindo as que anteriormente já foram descartadas) são experimentadas, adota-se alternativas incomuns (como o Brasil fez no Proálcool, após as crises do petróleo), surgem novas idéias para geração de valor, etc.


    Crises encadeadas: o encolhimento do mar de Aral produziu várias categorias de crises, todas interligadas.

     

  • As crises se encadeiam: Como dominós enfileirados, as crises se sucedem em sequência. A crise econômica na empresa pode gerar a crise financeira nas famílias dos empregados, a crise no transporte pode gerar uma crise de abastecimento, uma crise ambiental severa como a da foto acima (de pesqueiros onde ficava o Mar de Aral) pode provocar crises econômicas, humanitárias ou até mesmo crises internacionais e bélicas, e assim por diante. O relacionamento entre as crises pode ser caótico, mas acompanhar as crises que afetam ambientes, organizações e sistemas com os quais você tenha relação é uma forma de antecipar a possibilidade de que uma crise derivada o afete.

Tudo isso, somado e bem executado, serve para resistir à crise enquanto ela durar, e é muito mais efetivo quando realizado mantendo sempre um olho na subsistência e o outro nas condições que teremos para continuar nosso desenvolvimento quando a crise chegar ao seu fim.

Dica extra: aproveite para ler "Crie o seu Fundo de Reserva pessoal, e encare a vida com mais opções".

Concluindo: crise faz parte da vida

Crises são fatos da vida, e embora muitas vezes não possamos prever seus detalhes, é arriscado viver como se elas nunca acontecessem - assim como é indesejável viver como se elas sempre estivessem já batendo à nossa porta. É necessário estar atento a elas, atuando na prevenção e preparação, e não apenas na reação e recuperação.

Assim, além de ter a disposição de continuar resistindo até o fim, estar preparado para as crises é uma questão de estratégia organizacional (ou de valores, hábitos e atitudes pessoais). Quando ela chega, é preciso adaptar-se, concentrando-se no que é realmente vital, e eventualmente inovando - seja pelo lado da produtividade e eficiência, seja pelo lado do oferecimento de novas soluções adequadas à nova realidade da população em crise.

Todo mundo pode se adaptar, inovar e dar atenção às prioridades, mas quem se prepara nos períodos que antecedem a crise pode fazer isso em melhores condições. Para algumas crises não há preparação específica possível, mas dispor de reservas, alternativas, conhecimento e apoio é algo que pode fazer diferença positiva na maioria das situações.

"Trabalhos escolares prontos"

Os trabalhos escolares prontos são a "solução fácil" para o problema errado, que surge quando o estudante acredita que está no curso apenas para completá-lo e ser aprovado, e não para aprender ou para se capacitar a enfrentar algum desafio externo.

É uma situação típica também no planejamento organizacional, quando as pessoas encarregadas de executar a estratégia acabam perdendo o foco dos objetivos, e enxergam apenas os indicadores e suas metas departamentais ou individuais, e usam isso para justificar a adoção de "soluções fáceis" que deixam de lado o interesse real, apenas para garantir o batimento da meta - equivalente ao aluno que deixa de lado todas as demais considerações e passa a se preocupar apenas em alcançar a média mínima e a frequência obrigatória.

A oferta é grande porque a procura cresce

Cada vez mais percebo, via imprensa e até mesmo via observação direta (experimente pesquisar por trabalhos escolares prontos no Google...), que a busca por downloads de trabalhos acadêmicos (incluindo TCCs, relatórios de estágio e até monografias prontas!) é um fenômeno crescente. A imprensa mostrou recentemente os detalhes de uma variação muito mais complexa, que é a da monografia ou relatório final escritos sob encomenda, mas o que ocorre todos os dias é uma modalidade bem mais simples: o aluno que recorre ao plágio puro e simples de trabalhos prontos disponíveis para download na Internet.

Mas a causa não é puramente a "malandragem" do aluno

Embora alunos, professores e o sistema acadêmico como um todo tenham sua parcela (em tamanhos variados) de culpa, todos se unem para agir como se o problema fosse puramente "malandragem" dos alunos, e como se as raras "punições exemplares" aplicadas a alunos pegos colando ou plagiando trabalhos alheios fosse uma solução para a questão. A punição é importante, mas sozinha não resolve nada - duvido até mesmo que ela seja eficaz, na maioria dos casos, para evitar que os próprios envolvidos, ou as pessoas mais próximas, repitam o seu "crime" na próxima oportunidade que tiverem.

Só que o problema é bem mais amplo, e em alguns casos começa até mesmo em casa: não sei se estou em algum desvio estatístico ou não, mas conheço várias mães que não apenas fazem boa parte dos trabalhos escolares dos seus filhos que cursam o ensino fundamental (resolvendo a questão imediata das notas e de "passar de ano", mas não o objetivo real), como ainda por cima o fazem recorrendo ao plágio de trabalhos prontos e de artigos da Wikipédia e outras fontes usuais cujos textos os professores já devem estar carecas de tanto rever - mas aparentemente não rejeitam nem mesmo nos casos de cópia completa, direta e não-atribuída.


A família incentiva, e o avaliador finge não perceber que já viu a essência daquela obra em outro lugar...

E como se o incentivo materno e a tolerância dos professores e avaliadores não fosse suficiente, ainda há uma série de outras causas, incluindo:

  1. Matérias e trabalhos irrelevantes: incluindo também aqueles que são relevantes mas não conseguem fazer com que esta relevância seja percebida pela maioria dos alunos, que acabam cursando a matéria porque faz parte do currículo obrigatório (ou para alcançar seus créditos), ou que são obrigados a fazer trabalhos e pesquisas cuja relação com o objetivo do curso não é clara. O que nos conduz aos...
  2. Trabalhos cujo único objetivo é "dar nota": são os trabalhos escolhidos pelo seu nível de complexidade (fácil demais, ou suficientemente complexo, à escolha do professor), sobre temas secundários e cuja execução não acrescenta conhecimento valioso ao aluno. Às vezes é assumido pelo professor como sendo simplesmente "para complementar a nota", e conduz naturalmente à execução descomprometida.
  3. Materiais, cursos e trabalhos sem renovação: Se as aulas, as transparências, os exercícios, os trabalhos e as provas são as mesmas, reaproveitadas semestre após semestre ao longo de anos, concluo que o professor deveria estar consciente de que esta acomodação do agente é quase um convite a que o paciente também se acomode e busque um jeito de reaproveitar as respostas.
  4. Trabalhos cujo nível de complexidade não é proporcional à aprendizagem pretendida: Este é um fenômeno do qual fui vítima constante na pós-graduação que terminei de cursar recentemente. O professor de uma matéria de 12 horas-aula queria que os alunos exercitassem sincronização de cronogramas, mas para isso passava um trabalho relacionado à logística petrolífera brasileira, cuja execução dependia de levantarmos informações reais e atualizadas sobre as plataformas de petróleo, oleodutos, navios petroleiros, monobóias, refinarias, distribuição, varejo e consumo do petróleo e seus derivados no Brasil, para aí projetar alguma solução, ao longo de 10 dias. O convite claro à fraude (neste caso, não pelo plágio, mas pela invenção de dados para usar no lugar dos dados reais) fica mais chato quando se percebe a desnecessidade: o esforço maior acabaria sendo o do levantamento dos dados (não relacionados ao objetivo da cadeira ou do curso), e uma vez tendo os dados em mãos, a aplicação (aí sim relacionada ao objetivo) chegava a ser trivial.
  5. Orientação a indicadores: é o fenômeno já descrito acima, em que escola e família agem como se a nota e a frequência mínima (para "passar de ano") fossem o objetivo.

Mas o aluno também é agente desta situação

Claro que também há as causas relacionadas ao comportamento dos próprios estudantes, incluindo o despreparo, o mandrionismo e a preguiça pura e simples.

Há pesquisas a respeito (veja detalhes e referência sobre uma delas abaixo), e elas indicam que há mais causas neste lado da equação também, incluindo:

  1. Ignorância: mesmo tendo consciência do que é plágio, e de que é errado, os alunos aprendem pelo exemplo, especialmente nas séries iniciais. As famílias apóiam e até facilitam a cópia, os professores toleram sem nem mesmo criticar, e a questão ética do ato acaba sendo aprendida da maneira errada - a ponto de gerar indignação quando os professores mais exigentes, anos mais tarde, rejeitam trechos copiados sem atribuição.
  2. "Síndrome do estudante": em Gerenciamento de Projetos, recebe o nome de "Síndrome do Estudante" a tendência natural de deixar a execução das tarefas para o último dia. E quando os estudantes fazem isso, e mesmo assim querem entregar o "seu trabalho" no prazo, o plágio acaba sendo a opção de muitos.
  3. Pressão pela produção: É outra natureza da perda do foco: ao invés de concentrar esforços no aprendizado, a instituição busca ter alunos-estrela (sejam vestibulandos ou doutorandos...), a ponto de pressioná-los a realizar mais do que seria razoável - e aí os caminhos "alternativos" acabam sendo tentados por eles também.
  4. Rebeldia e questionamento: Como resposta a um sistema desestruturado (como os dos exemplos acima, de trabalhos e cursos mal ajustados às necessidades), ou mesmo como a característica atitude questionadora típica de estudantes, o aluno acaba recorrendo à fraude, às vezes racionalizando a situação, como se os erros alheios que ele identifica justificassem os seus próprios.

Um ponto de vista acadêmico e um chamado à ação

Eu conheci hoje, via Prof. @marrcandré esta adaptação do Prof. Palazzo para o texto "Plagiarism detection and prevention: final report on the JISC electronic plagiarism detection project", de Chester, G. (2001).

Além de me motivar a escrever sobre o tema com minha própria experiência de aluno e com minhas próprias observações, o texto do Prof. Palazzo me pareceu digno de ser divulgado, porque pode fazer com que pais, professores e até mesmo alunos interessados e bem-informados repensem algumas atitudes que nem sempre são questionadas.

No (infelizmente comum) caso das famílias e professores desinteressados na educação dos alunos, e dos alunos desmotivados ou sem condições de receber uma educação com qualidade adequada, pouco há que eu possa propor, embora eventualmente os artigos sobre o desafio de liderar equipes com pessoas desinteressadas e sobre como liderar nos momentos difíceis possam ajudar quando houver alguém disposto a fazer alguma coisa mesmo nas condições mais adversas.

Apresentações: perdendo o medo do microfone

Até quem é craque em apresentações e pronunciamentos em sala de aula ou em pequenas reuniões às vezes "treme na base" nas primeiras vezes em que um evento maior ou alguma necessidade especial (como a de gravação ou a de transmissão) o obriga a apresentar usando um microfone.

♬ Tudo falha, tudo falhará... ♪

E as razões são variadas, incluindo algumas de ordem prática, como o despreparo dos anfitriões, que vemos ocorrer vezes sem fim, e se traduzem em trapalhadas depois que o evento já começou, o palestrante já está lá na frente e a platéia já está lotada. Não sai som por todas as caixas, a localização delas gera diferenças ou ecos, o deslocamento natural do palestrante gera microfonia, o palestrante não tem retorno do seu áudio, etc.

Estes percalços acontecem sem ser por culpa do palestrante (a não ser que o evento seja promovido por ele mesmo), e poderiam ser prevenidos com uma providência simples: um breve ensaio com teste da infra-estrutura, meia hora antes de o auditório ser aberto.

E o palestrante precavido e experiente sempre marca sua chegada para mais cedo, e insiste para que o teste ocorra em sua presença, e inclua tudo o que sempre falha: recursos audio-visuais, microfones (incluindo o de reserva), mesa de som, caixas de som, telas, projetores, luzes, cortinas, apresentação, vídeos, arquivos, relatórios, acesso à Internet, softwares e tudo o mais que vá ser exibido ao público, com participação direta de toda a equipe que irá operar tudo isso.

Mas o microfone é um caso à parte

Só que o microfone é um caso especial. Telas, projetores, caixas de som e a própria apresentação são recursos importantes mas que ficam ali, no canto deles, longe de você.

Já o microfone... não há como se livrar dele, ele o acompanha, ou ancora você a uma posição fixa. Os erros que podem ocorrer com ele acontecem durante a apresentação, e muitos deles são responsabilidade integral do palestrante, que:

  • fica muito perto, ou muito longe;
  • tosse nele, sopra nele, assobia, grita;
  • larga-o estrondosamente em cima de uma mesa;
  • esquece de ligar ou desligar;
  • aproxima-o de uma caixa de som causando microfonia;
  • se afasta da base do microfone sem fio;
  • tenta, sem conseguir, segurar ao mesmo tempo o microfone, o apontador laser e algum material de apoio;
  • tem uma conversa particular ou vai ao banheiro sem desligar o sem fio de lapela;
  • etc., etc.

E ainda há o fator estranhamento, que pode ser o mais complicado de todos: a maior parte das pessoas desenvolve suas habilidades de apresentador em grupos pequenos, na sala de aula ou em reuniões de trabalho - e nelas podem estar presentes todos os materiais essenciais de apresentação, mas o microfone é a exceção, assim a prática com ele não se desenvolve, e surge apenas na primeira vez em que você tem que se dirigir a uma platéia maior.

Treine com microfone

Há alguns anos eu tive a rara oportunidade de ter um gestor com grande habilidade de comunicação, e que dava atenção a desenvolver estes elementos nos integrantes de sua equipe. Quando surgiu a necessidade de participarmos todos em um evento corporativo em que vários de nós teríamos que nos dirigir, em densas apresentações técnicas, a um auditório lotado de pessoas não-familiarizadas nem mesmo com a terminologia do negócio, ele nos convidou a viajarmos um dia antes para realizar, no próprio local, uma oficina de comunicação, apresentando uns para os outros nosso material repetidas vezes, ouvindo críticas e fazendo ajustes.

Isso foi essencial para ajustarmos e reduzirmos o escopo de nossas apresentações, mas também para que dominássemos suficientemente o equipamento que seria usado, incluindo o sistema de som do local, para que ele de fato nos apoiasse, e não fosse um obstáculo ou um complicador, como tantas vezes acontece.

Um dos pontos que praticamos foi que, a cada repetição de alguma apresentação, todos trocávamos de lugar, sentando na primeira fila, ao fundo, no meio do auditório, à esquerda, à direita, com cortinas abertas, com cortinas fechadas, etc. - e isso permitiu que cada um de nós, na condição de palestrante, acabasse percebendo como melhor usar a sua voz ao microfone naquelas condições, evitando tons muito altos ou muito baixos, e garantindo ser ouvido com qualidade por todo o público.

Claro que fazer isso a cada evento, e para cada auditório, raramente é praticável, e sairia bem caro. Mas estou convicto de que os principais valores da experiência toda foram gerados por 3 fatores:

  1. Apresentar repetidas vezes usando um microfone, para saber a que distância segurá-lo, perder o "medo" do instrumento, passar na prática pelas situações chatas de tossir, espirrar, assobiar, gritar nele, murmurar, ou aproximar-se de uma caixa acústica com ele ligado (para saber o que acontece, e conscientizar-se da necessidade de evitar).
     

  2. Ter uma pessoa interessada ouvindo tudo e fazendo críticas, com foco na comunicação, e não no conteúdo ou na apresentação. Há partes em que você fala alto demais? Rápido demais? Afasta o microfone da boca, sem notar, ao gesticular? Adianta o discurso? Aceite as críticas, e recomece, até aperfeiçoar.
     

  3. Conhecer antecipadamente as condições acústicas reais do auditório: sempre que é possível, eu peço para fazer teste de som, com o responsável pela sonorização falando ao microfone lá na frente, e eu me posicionando ao fundo, no meio e na frente, de ambos os lados, e pedindo ajustes quando necessário. É bem melhor do que ter de ficar perguntando, com a apresentação já iniciada, se o público está ouvindo - e reduz o risco de eles dizerem que não, e ter de rolar todo aquele improviso, com gente mudando de lugar, interrupções pra consertarem alguma caixa de som ou ajustarem algo no amplificador.

 

Só o terceiro destes fatores precisa mesmo ocorrer no local da apresentação. Os 2 primeiros já produzem efeito positivo (embora menor) mesmo se forem realizados por você em um microfone barato ligado ao seu PC ou aparelho de som doméstico, especialmente se o microfone for do mesmo tipo usado no auditório em que você vai se apresentar (de lapela, de pedestal, manual, etc.).

Algumas dicas de microfone para os marinheiros de primeira viagem

Catei nos livros de Reinaldo Polito aqui na minha estante algumas dicas consagradas para quem não tem a prática do microfone, e por isso deve usá-los da maneira mais ortodoxa possível:

  • Não resista ao microfone: Se o ambiente é grande, a platéia é numerosa e há microfone disponível, use-o! Mesmo se sua voz for potente, ela não vai ser distribuída por igual à platéia, e o cansaço pode prejudicar o final do discurso.
     


     

  • Se o microfone for de pedestal (ou de mesa), posicione-o bem, mas ANTES de começar a falar, e resista a ficar ajustando-o depois, causando ruídos e interrupções (a não ser que alguém além de você indique que o som está insuficiente). Se um ensaio não tiver determinado a posição ideal, coloque-o na altura do queixo, e a 10cm de distância da sua boca - e não se esqueça de que ele estará fixo, portanto você deve ficar ancorado próximo a ele.
     

  • Atenção à postura! Nos microfones de pedestal ou de mesa, é ele que precisa se aproximar de você. Jamais se incline, se debruce ou se estique para aproveitar uma posição de microfone previamente ajustada para mais alguém, pois a postura sempre distrairá a atenção do público, e pode causar um efeito negativo à sua imagem.
     

  • Se o microfone for "de mão", posicione-o onde ensaiou (ou na altura do queixo, a 10cm da boca), mantendo-o sempre no mesmo lugar. Deixe o braço naturalmente caído ao longo do tronco, dobrando para cima apenas o cotovelo, e tenha a consciência de que esta mão não poderá gesticular, nem segurar nenhum material de apoio. Eventualmente o microfone de pedestal ou de mesa permite a sua retirada e uso como se fosse "de mão", e se não for inapropriado, vale a pena fazer uso deste recurso algumas vezes ao longo da sua apresentação, dando assim mais dinamismo a ela. Mas não exagere, nem quebre o protocolo do seu evento. E não fique o tempo todo passando o microfone de uma mão para outra - indica desconforto, e pode prejudicar sua imagem.
     


     

  • Microfone de lapela e headset: é o mais fácil de se adaptar, pois deixa as duas mãos livres e fica sempre na mesma distância em relação à sua boca. Mas prenda-o bem, e necessariamente ensaie antes, pois a captação deles muitas vezes não é tão boa, gerando a necessidade de escolher bem aposição. Se sua preferência for o headset ("estilo Sandy", como dizem por aqui), vale a pena ter seu próprio, acompanhado de um kit de cabos, adaptadores e receptor - mas aí necessariamente chegue cedo, pois a ativação junto ao auditório pode exigir algum tempo.
     

  • Garanta o "plano B": especialmente quando estiver usando algum recurso sem fio, com pilhas ou baterias. Elas acabam nos momentos mais impróprios, e cabe a você insistir para que haja um backup pronto para entrar em uso imediatamente.
     


     

  • Microfone móvel para a platéia: Especialmente nos casos em que a apresentação estiver sendo transmitida ou gravada, é importante ter uma solução de captação das manifestações e perguntas da platéia. Mesmo quando não há gravação, o microfone para perguntas dá ao público a possibilidade de ouvir com clareza as perguntas feitas pelos demais presentes.

Como de hábito, o microfone está aberto (via comentários) para que você acrescente também as suas dicas, sugestões e comentários!

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